domingo, 27 de maio de 2018

MEMORIAS OLFATIVAS


Quando eu era pita, mais ou menos 8 anos, havia uma filha de uma amiga da minha mãe, de quem eu gostava muito, que nos costumava visitar amiúde. Angela, chamava -se assim. 

Um dia, após um jantar, e enquanto os mais velhos falavam de coisas de adultos eu,  pitazita, poisei a minha cabecinha sobre o colo dela, pensando em tirar uma soneca naquelas pernas rechonchudas (era gordita a cachopa), quando de repente me sobe às narinas, uma fragrância  que identifiquei na altura como sendo, algo entre a água onde a minha mãe tirava as tripas ao peixe, e o cheiro a bacalhau demolhado. Só sei que levantei de imediato a cabeça do colo dela, perdi o sono, e se me revoltaram as tripas. Desde esse dia nunca mais consegui ver a Angela com os mesmos olhos. Lembrava - me sempre daquele aroma a tripas de carapau e pensava muitas vezes que, talvez, quando ela fosse  a andar na rua, deixasse atrás de si aquela essência.


Anos mais tarde, já adolescente, ouvi falar em " cheiro a rata mal lavada", como sendo " cheiro a bacalhau" ou " cheiro a peixe podre" . Nessa altura veio -me  à memoria aquela noite em que quis dormir no colo da Angela. E foi aí que  anos de desarranjo mental finalmente tiveram explicação: Ela não lavava a rata! Não sei se fiquei feliz com a explicação, mas pelo menos soube que, no meu caso, estava a fazer tudo bem.

Tudo isto para dizer que hoje, 41 anos depois, revivi  esse dia.

Estava eu na recepção de um hotel com 5 andares em que só existe um elevador e, sendo eu a guia de um grupo de 37, fiquei  educadamente para o fim. Como manda a boa hospitalidade portuguesa, fazia sala a um casal francês de alguma idade. Quando finalmente chega a vez dos senhores saírem para os  quartos, eis que me chega às narinas o tal odor. Como num deja vu, levanto o olhar na direcção da senhora e sinto-me novamente com 8 anos, a levantar a cabeça do colo da Angela. 


A memoria sensorial é, de facto, uma coisa espantosa.

terça-feira, 24 de abril de 2018

AQUELES QUE NUNCA SÃO LIVRES

Quase a chegar ao meio século de vida ( falta um ano, mas pronto, já sou cota!), concluo que a liberdade não é para qualquer um.

Não é mesmo. Na realidade social que vivemos em que todos se exibem nas redes sociais, como se a vida fosse aquilo que se vê, na verdade nada é realmente, verdade.

É preciso ter coragem para ser feliz. É preciso chegar a ser a própria essência do que somos, para SERMOS verdadeiramente. É preciso atingir o fundo de nós mesmos para podermos SER  na verdade NÓS,  não apenas existir. Não é fácil. Para aí chegar é preciso despojarmos nos de tudo o que nos rodeia e amadurecer o nosso true self .

Como fazer isso? Bem, eu fiz à força. Não é que quisesse mas fui empurrada. Muito com a ajuda do Shit Break ( a pior pessoa que conheci na vida. Pior ainda que a PUTA DA GORDA ...ver alguns posts atrás). Nos anos da crise que passei em que tudo me fugia dos dedos, dei por mim um dia a pensar " que se foda, tirem - me tudo, levem -me tudo, EU vou ser sempre EU e isso não vai mudar".

O shit break fez me sentir a pior pessoa do mundo e eu, na minha cegueira, achei que o era. Até ao dia em que, por acaso abri os olhos e pensei "não, eu não sou assim, eu não preciso disto, eu consigo sozinha, nem que para isso tenha que morrer"

E fui.

E avancei, primeiro a medo, depois, sendo apenas o que tinha sobrado de mim, que era  EU. E fui. E pensei que se não conseguisse ir, tentaria de novo. Que o pior que poderia acontecer seria falhar de novo. mas que nada me impediria de tentar sempre. E consegui.

E pelo caminho aprendi, que todas as pessoas são diferentes, e que cada pessoa tem a sua missão. Que na verdade nada do que nos é dado a conseguir é superior às nossas capacidades. Que todas as missões de todas as pessoas são as suas lutas e devem ser respeitadas.( mesmo o Shit Break e a PUTA DA GORDA)  Foi para isso que vieram. No caso destes dois, sendo péssimas pessoas, ajudaram a trazer o melhor de mim. Aprendi a amar-me. OBRIGADA BASTARDS!

Também aprendi que muita gente não se ouve a si própria e que por isso nunca se chega a conhecer a si mesmo, porque escuta apenas os barulhos do mundo. Muitas pessoas vivem rodeadas de futilidades que consideram importantes e por isso...não ouvem o chamamento da felicidade. Um dia, quando os barulhos já não forem importantes..(e esse dia chega sempre)...vão olhar para trás e pensar que talvez, aquele momento, aquela hipótese que lhes foi dada naquela altura, tivesse sido o TAL momento que poderia ter mudado tudo. Poderia ter sido a felicidade. A coisa que faltou sempre. Mas agora...é tarde.

Os ruídos do mundo. O que os outros pensam. Tudo isto é o que nos impede de ser livres.
Pessoas que vivem presas às opiniões nos outros. AS OPINIÕES DOS OUTROS SÃO DELES! Pessoas que vivem presas a um status social. Pessoas presas a um mundo sem saber da existência de outros. Tudo  coisas que prendem.

 O conhecimento também traz  liberdade.

Somos todos tão diferentes! Aceitar a riqueza da diversidade humana é também liberdade. Poder falar sem pruridos com todo o gênero de pessoas enriquece nos a alma.

Tenho pena de quem vive preso a conceitos  e preconceitos. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

NOME DE CASA

É fantástico trabalhar com o mercado étnico das viagens.
Desde que me conheço como amante desmesurada dos GDS ( sistemas de reservas ) que os melhores anos do meu trabalho foram alegre e coloridamente pintados por diferentes etnias.

Tive o prazer um dia destes de atender um Senhor Cliente ao balcão, que me comprou bilhetes Lisboa Praia Lisboa, para toda a sua família e mais uma vizinha que dava pelo nome de Rita Teixeira. Nome comum, normalíssimo, para um qualquer português, no entanto, algo estranho para um cabo verdiano, dado que todos são "Semedos" "Monteiros" 

"Tavares". Mas enfim, fosse Rita Teixeira o nome da passageira.

Passadas semanas, aparece o Senhor Cliente, juntamente com dita cuja Rita e diz-me:

- A sinhora vai disculpar mais o nomi dela não é Rita Teixeira, o nomi dela é Maria Rosario Tavaris.

( Eu sabia, Tavares)

Esbugalhei os olhos em direcção à criatura e respondi:


- Então mas o senhor disse - me que ela se chamava Rita Teixeira...Ela não tem estes dois nomes no passaporte?

- Não minha sinhora. Rita Teixeira é nomi di casa

Foda-se!!!

Nome de casa???!!! E nome de casa com apelido???? Fuck!

Os africanos têm muito este habito.

Só que geralmente os nomes de casa são nomes tipo 

"Bilucha", "Manucha" "Pantucha". No meu antigo prédio havia uma moçambicana que se chamava Alice mas o nome de casa era Bilucha.

Francamente...ao que nós chegámos! Os cabo verdianos tinham que ser requintados a este nível. Agora os nomes de casa são nomes tugas e, veja-se, já têm apelido! Rita Teixeira! Muito bem!!!

Resultado da brincadeira: perdeu a viagem

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

The Facebook Trouble


Recordo com alguma nostalgia o ano em que abri este blog. 2008. Ano de boa colheita em termos de inspiração. Marca talvez, a ultima vez  em que fui realmente feliz trabalhando por conta de outrem, o que não deixa de ser fantástico uma vez que  trabalhei para a máfia moldava. Ah poize! Para quem ainda não me conhece, fique a saber que a minha vida, dava, realmente um livro. E digo um livro porque considero que a leitura nos entra pelos poros enquanto que os  filmes apenas pelos olhos. Não falta nada; Amor, Sexo, policia, intriga. Tem tudo.

Poize! Quando iniciei esta aventura bloguistica não existia ainda Facebook. Exitia Hi 5, mas a humanidade ainda era livre de se peidar sem necessidade de partilhar com o universo.  Para dar a conhecer  esta importante combustão  do metabolismo humano, tínhamos que abrir o blog, escrever em letras garrafais: ACABEI DE ME PEIDAR, e depois visitar alguns outros blogs, onde comentávamos na esperança de que essas pessoas chegassem ao nosso e vissem que tínhamos soltado o nobre gaz. Não havia directos, por isso era bem provável que o nosso flato  só chegasse ao  conhecimento publico algumas horas depois. 

Neste momento a flatulência humana e outros factos que tais são partilhados em  real time com todas as pessoas que fazem parte do nosso circulo de amizades, com seus amigos e quem sabe, com quem mais. Chegamos ao ponto de dizer antecipadamente de que cor será o nosso próximo flato visto partilharmos o nosso pequeno almoço almoço e jantar. Que é o mesmo que dizer “ Ah, com que então a comer ovos mexidos...hás de peidar amarelinho mais logo” ou “ Que maravilha, a comer ostras...Belo flato com cheiro a algas logo mais.” ´E assim por diante.

O aparecimento do facebook na sociedade portuguesa trouxe me alguns constrangimentos.
Se bem se lembram eu escrevi este blog, não apenas como um diário da minha loucura, mas também como forma de recordar alguns momentos épicos da minha vida. Momentos esses passados com pessoas....pessoas com quem pensei nunca mais ter contacto na vida....pessoas essas que voltei a encontrar no facebook.

Comecei por partilhar passagens dos meus escritos nesta rede. Até concluir que se algumas das pessoas com quem partilho memórias talvez não ficassem muito felizes por saber que as suas vidas eram lidas em vários pontos do mundo. Então decidi que tinha 2 hipóteses: ou remover amizade  dessas criaturas ou reverter para rascunho essas passagens.

Senao vejamos:

Elsa. A amiga que me criticava por ter tendências para homens classe operaria quando ela mesma se casou com uma criatura que vestia um fato de treino Adidas aos fins de semana. So damn chunga!!!!

Leila; a amiga que  começou a fumar aos 30 anos na passagem de ano 97/98 e marchou 2 marmanjos numa noite sendo que um deles nao tinha dentes da frente em cima e os de baixo estavam todos podres. A boca deste animal era um buraco negro nauseabundo. Mas ela mamou lha  metade da noite.

Rute: A gaja que  tirou a virgindade ao meu irmão na casa dos meus pais no quarto  ao do  deles.

O meu irmão: Siiiimmm ele esta em muitos posts....e não, não ia gostar nada....

António  AKA Mortes – O gajo que me tirou a virgindade no palco de  um  clube onde ensaiava ( era baterista  numa banda)  O gajo que teve que se esconder dentro do meu guarda vestidos para não levar um tiro do meu pai. Escapou por muito pouco....

Carlos: AKA  Forra – O gajo que era filho de vendedores ambulantes e com quem eu mantinha  romance tipo Romeu e Julieta porque o meu pai era policia da câmara. Este era trolha..pois claro....

As irmãs do Carlos AKA Forra – São todas minhas amigas no face...não iam gostar de saber que, ah  e tal, ela fala do meu irmão nestes termos!!!! #QUEMEQUEELAPENSAQUEÉ?!! #VACACONVENCIDA

É complicado senhores...é complicado....

Poizé!  No facebook só eu é que tenho passado. O resto dos meus amigos apenas passou pelos anos sem nada de relevante. Um passado sem mácula.   Como cada um tem o direito a viver a sua vida como quer, sem olhar para trás, tomei uma decisão que considero a mais acertada.

Não quero deixar a minha vida em rascunho. Não quero remover as criaturas que sao parte dela. Portanto-..alterei o link. Assim, novos leitores podem ler as minhas aventuras. Os outros..I am so sorry....#GAMEOVER!