quinta-feira, 12 de março de 2009

A VIDA

Passados poucos meses, talvez 7, de eu ter nascido o meu pai foi para a Guiné. Não sei muito bem a estória deste meu inicio de vida mas penso que ele voltou quando eu tinha à volta de 3 / 4 anos. Lembro-me de viver no Alentejo nessa altura e escrever cartas ao meu pai num pai natal que me tinha sido enviado por ele. Até tenho uma foto minha dessa altura com uma anotação escrita pela minha mãe, com o dito pai natal na mão.
Acho que todos os problemas que vim a ter mais tarde com relacionamentos têm a ver com a ausência do meu pai nesta altura. Sempre tive tendência para me aproximar dos homens e depois, quando eles já estavam mesmo caidinhos, abandonava-os. Por outro lado quando sabia que algum não queria, à partida, nada comigo, era mesmo esse que eu queria. Até ele me querer. Depois perdia a graça.
O meu pai nunca foi de grandes demonstrações de afecto. Nem a minha mãe. Mas vindo dele sempre me afectou mais. Sempre foi um exemplo de honestidade, de rectidão de carácter para a familia. Era policia. Mas um policia honesto, um exemplo para todos. Nunca conheci ninguém como o meu pai. Chegou a obrigar-me a pagar uma multa de trânsito, na altura em que ninguém as pagava.
Tem quase 70 anos. Faz em Maio. E este pode ser o ultimo dia do pai que passo com ele. Custa-me crer que o meu mundo tal como o conheço está prestes a acabar.
Partilho isto com vocês, que não conheço, porque está de tal forma entranhada em mim esta dôr que não falo dela com quem conheço. Não aguento que me perguntem por ele por isso, simplemente não falo no assunto. E preciso de falar. O meu pai tem um tumor. Apareceu-lhe faz agora 1 ano. Teimoso como não há ninguém, tinha sintomas de que algo não estava bem mas durante 3 meses recusou-se a ir ao médico. Quando, finalmente o convencemos a ir, já estava em estado avançado. Mesmo assim tentámos um tratamento. Corria tudo bem não fosse ele ter apanhado uma pneumonia que fez com que tivesse que parar os tratamentos.
Ontem fiquei a saber que o tumor já está em todo o lado. Já não há nada mesmo a fazer.
Adoro o meu pai, como devem imaginar. Sempre soube que um dia ia ficar sem ele, é a lei da vida. Mas não desta forma. Não uma morte anunciada. Sinceramente, não sei como consigo, ainda sorrir, rir, vir trabalhar, dizer piadas aos colegas, ir às compras, viver, sabendo que alguém tão importante para mim como o meu pai está prestes a desaparecer para sempre. A vida é mais forte, realmente. Acho que vivo num estado completo de negação. Talvez só quando chegar o fim me aperceba de que é realmente verdade. Aprendi, logo quando soube da doença, a esconder a dôr que sinto à frente da minha familia porque não sei como vou explicar à minha filha que o avô está doente e pode não recuperar. Às vezes à noite antes de adormecer choro, choro muito e adormeço a chorar. Olho para o meu filho e penso que o avô ia gostar de o ver crescer, tal como ia gostar de conhecer os filhos do meu irmão. É tão injusto! Acredito que existe um plano de vida para cada um de nós e sei que tudo tem uma lógica no universo. Portanto, esta injustiça há-de ter um sentido.
Não acredito na morte para sempre. Acredito na vida para sempre. O meu pai não sabe do seu verdadeiro estado. Penso, até que não quer saber. Nunca foi uma pessoa de fé. Para ele quando a vida acaba, acaba simplesmente. É muito mais dificil receber uma noticia destas quando se pensa desta forma
Na minha crença pessoal, nós voltamos vida após vida para nos aperfeiçoarmos. Portanto para mim, nunca há-de ser um adeus, mas sim um até à vista.
Sofro pelo sofrimento dele. E sei que vou ter muitas muitas saudades.

7 comentários:

Capitão Merda disse...

Lamento, Gata!

:(

Mas é como dizes: é a lei natural a funcionar...

Andreia do Flautim disse...

Sinto muito=(
Eu acredito que não é um fim.

anaaaatchim! disse...

Conheço esse tipo de teimosia de gingeira Gata

Espero que encontres a melhor forma de lidar com tudo isto... e que continues a chorar. Acho que chorar faz bem à alma

A minha sogra morreu pouco antes do natal... ainda hoje não acredito, e pelo que vejo e sinto do meu marido... ele também não. Parece que ainda está connosco... por isso talvez tenhas razão quando dizes que que a morte não é um fim...

Maldonado disse...

Lamento muito, mas é o ciclo natural da vida: uns vão, outros ficam...
Custa-nos a aceitá-lo, mas se não o fizermos, a nossa sanidade mental ressentir-se-á...

Funes, o memorioso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Funes, o memorioso disse...

Acho que a geração do seu pai (que é a do meu) foi educada a ocultar e a não manifestar os seus sentimentos. Como se eles fossem uma fraqueza inconfessável.
Tenho a certeza que ele gostava que as suas últimas palavras fossem uma declaração do Amor que sempre lhe dedicou e do afecto infinito que por si sentia cuja demonstração foi ensinado a esconder e a manter sob reserva.
Infelizmente, partilho com o seu pai a falta de fé. Mas se não é esse o seu caso, há-de convir que separar-se momentaneamente dele agora, daqui a dez anos ou daqui a vinte, em termos de eternidade, não faz diferença absolutamente nenhuma.

provocação disse...

Gata, tenho uma experiência parecida, a minha relação com o meu pai também era assim e a grande diferença nesta história foi que ele faleceu tinha eu 18 anos. Hoje, passados alguns anos, sinto que gostava de lhe ter dito que apesar de não compreender o modo como levou a vida, que não o culpava e que lhe agredecia por algumas coisas, gostava de ter lavado a alma com ele. É a melhor coisa quanto a mim, devia ter-me fechado num quarto com ele, para mais era filha única e ter tido uma conversa que seria a última a agradecer pelas coisas boas que me proporcionou pelos ensinamentos que me deu (embora no meu caso de uma forma estranha) e ter-me feito acima de tudo numa pessoa como ele dizia "que pensa sózinha e que não é de nenhuma manada".
Lamento o teu sofrimento, sê forte. Beijinho.